EXPEDIENTE CURITIBA - REGIÃO CENTRAL 17h30 - 20h 2017 - 2025

ARQUIVO VIVO / 26.08.2026
faça arte
EXPEDIENTE CURITIBA - REGIÃO CENTRAL 17h30 - 20h 2017 - 2025
Quando voltei para Curitiba, em 2014, comecei a fotografar na rua. Era um exercício quase diário. Eu estava no início da minha carreira como fotógrafo profissional, e sair para caminhar pela cidade era uma maneira de praticar, desenvolver a técnica e produzir imagens que eu pudesse mostrar. Naquela época, principalmente no Instagram.

Paralelamente, existia a minha busca por um trabalho autoral. Eu inventava projetos e séries fotográficas pensando em exposições, mas essas ideias não tinham necessariamente relação com as fotografias que eu fazia durante as caminhadas. Ir para a rua continuava sendo uma atividade mais livre. Era uma diversão, um modo de espairecer a mente.

Naquele período, havia um movimento forte de fotografia de rua em Curitiba e uma estética bastante presente. Eram cenas construídas pelo sol, por sombras densas e recortadas e por contrastes muito marcados. Eu tentava fazer aquilo. Tentei muitas vezes, mas nunca consegui de uma forma que me satisfizesse.

O tempo passou. Continuei estudando, criando séries, absorvendo referências e conhecendo novos fotógrafos. Também continuei indo para a rua.

Nessa época, eu havia entrado em contato com o trabalho de fotógrafos que utilizavam câmeras de grande formato e produziam imagens monumentais. Andreas Gursky, Jeff Wall, Stephen Shore e Gregory Crewdson começaram a me chamar muito a atenção. Eram referências que eu assimilava, mas que ainda não relacionava conscientemente com aquilo que fazia nas ruas de Curitiba.

Até que, um dia, resolvi permanecer no centro por mais tempo.

Eu estava fotografando durante a tarde, parei para tomar um café com um amigo e, quando saí, a noite já começava a cair. No caminho de volta para casa, decidi continuar fotografando. Fiz uma imagem na esquina da Rua Doutor Muricy com a Rua Cândido Lopes, em frente ao Hotel Bourbon, e segui caminhando. Fotografei mais algumas cenas até escurecer completamente.

Quando cheguei em casa e abri os arquivos, aquela primeira fotografia me intrigou. Havia nela algo que me impactava e que eu ainda não sabia explicar. Era uma cena cotidiana de rua, mas reunia elementos presentes nos fotógrafos pelos quais eu vinha me interessando. Havia uma arquitetura mais imponente e, sobretudo, uma atmosfera que parecia cuidadosamente construída.

Essa atmosfera surgia da mistura entre a luz natural de um dia que ainda não havia terminado e as luzes artificiais que começavam a aparecer. Eram os faróis dos carros, os semáforos, as vitrines e os postes. Dentro dessa paisagem estavam as pessoas, que pareciam habitar outro estado naquele horário.

Era o fim do expediente.

As pessoas saíam do trabalho e se deslocavam em direção às suas casas, ao ônibus, ao descanso ou à continuidade das obrigações do dia. Embora o centro fosse barulhento, a fotografia continha um silêncio.

Passei a observar que, naquele momento, as pessoas pareciam mais solitárias e determinadas. Caminhavam de um ponto a outro, repetindo trajetos cotidianos, pensando no horário do ônibus, na chegada em casa ou em qualquer outra coisa que permanecia inacessível para mim. Cada uma estava imersa em seu próprio mundo.

Aquela atmosfera era muito diferente da encontrada às três horas da tarde. No meio do dia, as pessoas ainda estão trabalhando e há outro tipo de convivência, outra forma de a cidade permanecer viva. No fim do expediente, as lojas começam a fechar, o movimento se desfaz e as pessoas parecem já ter gastado o seu dia, embora muitas ainda cheguem em casa para continuar trabalhando.

Depois daquela fotografia, passei a ir ao centro especificamente nesse horário. Chegava por volta das cinco e meia, estacionava o carro quase sempre no mesmo lugar e começava a caminhar. Eu queria explorar aquela luz, aquela paisagem e aquele estado particular da cidade.

Com o tempo, percebi que aquilo também havia se tornado o meu expediente.

Havia repetição na minha rotina, assim como havia repetição no percurso das pessoas que eu fotografava. Embora estivesse na posição de observador e sentisse prazer naquilo que fazia, eu também procurava algum resultado. Usava aquelas saídas para aperfeiçoar minha técnica e produzir imagens que pudesse mostrar. Publicava as fotografias no Instagram acompanhadas da expressão “fim do expediente”.

Continuei fazendo isso de 2017 até meados de 2022.

Ao longo desses anos, passei a compreender melhor as cenas que encontrava na rua. Testava diferentes composições, tipos de luz e maneiras de organizar as pessoas e a arquitetura dentro do quadro. Aos poucos, fui percebendo cada vez mais nuances visuais e explorando essas possibilidades de maneira muito livre.

Eu nunca me preocupei em ser disciplinado porque não considerava aquilo um projeto. Gostava muito das fotografias, mas não enxergava um trabalho estruturado no conjunto delas.

Essa percepção começou a mudar por meio de Malu Meyer, da SOMA Galeria, que já conhecia as imagens. Em uma de nossas conversas, ela comentou que o trabalho a fazia lembrar das pinturas de Edward Hopper. Naquele momento, Malu estava idealizando uma exposição coletiva para ocupar um intervalo na programação do Museu da Fotografia e me convidou para participar.

Foi a primeira vez que as fotografias de *Expediente* foram apresentadas em uma exposição. Selecionei dez imagens diretamente no monitor, orientado principalmente pelas fotografias de que mais gostava.

Ainda não pensava muito na narrativa existente entre elas. Via sobretudo uma transição temporal, da luz do dia para a noite, e ainda não havia concedido ao trabalho o espaço necessário para refletir sobre aquele momento específico da cidade.

Mesmo assim, a exposição tornou as imagens mais conhecidas e aproximou de mim pessoas que teriam importância decisiva no desenvolvimento do trabalho. Entre elas estavam o curador Guilherme Zawa e o fotógrafo Lucas Pontes.

Alguns meses depois, fui convidado para realizar uma exposição individual na SOMA Galeria. Com o envolvimento de Guilherme Zawa, comecei a compreender que havia ali um projeto mais consistente do que eu conseguia perceber sozinho.

Durante nossas conversas, passei a enxergar coisas que, de alguma maneira, eu já sabia que estavam nas fotografias, mas ainda não conseguia organizar em palavras. Eram ideias e sensações que permaneciam soltas na minha cabeça.

O trabalho curatorial ajudou a estabelecer essas conexões. Guilherme escreveu para a exposição um texto curatorial no qual me reconheci completamente. Eu me sentia dentro daquele texto e, pela primeira vez, também dentro do próprio trabalho. A partir daí, *Expediente* ganhou outro peso para mim.

Lucas Pontes incentivava o trabalho desde o começo e insistia que ele deveria se transformar em livro. Dizia que o livro era o objeto que permanecia, o legado material capaz de marcar a história do projeto.

Quando foi aberto o edital do Mecenato da Prefeitura de Curitiba, Lucas me ajudou a desenvolver a proposta, escrever o projeto e conduzir sua parte burocrática. A proposta foi habilitada com a maior nota e contemplada com financiamento público por meio do incentivo da Prefeitura e da Fundação Cultural de Curitiba.

A partir daí, Lucas tornou-se coordenador do projeto. Sua experiência foi fundamental durante todo o processo de realização de *Expediente*, desde a organização inicial até a concretização do livro e da exposição.

Começava então outra etapa. *Expediente* finalmente se tornava um projeto no sentido mais concreto da palavra.

Eu precisava reunir tudo o que havia produzido, realizar novas saídas, refletir sobre as imagens e editar o material. Em determinado momento, tanto pela sensação de que o ciclo estava terminando quanto pelos prazos do projeto, percebi que era hora de parar de fotografar. Fiz uma última saída e comecei a seleção.

Havia mais de cinco mil fotografias. Fiz sucessivos recortes até chegar a aproximadamente trezentas imagens, que mandei imprimir no formato de 10 por 15 centímetros. Colei todas na parede e passei alguns meses trabalhando na série, quase sempre durante as madrugadas.

Foi nesse processo que comecei verdadeiramente a me reconhecer no trabalho.

Ao observar todas aquelas imagens reunidas, percebi as coisas que se repetiam, inclusive aquelas que eu não sabia que estava percebendo enquanto fotografava. Comecei a compreender meu modo de olhar, de compor e de organizar o espaço.

Também passei a me perguntar por que eu enxergava daquele jeito, por que percebia determinadas situações e por que compunha as imagens daquela maneira.

Foi um processo intenso e prazeroso de descoberta da minha própria fotografia. Embora eu já fotografasse havia cerca de vinte anos, nunca tinha passado por uma experiência semelhante.

Daquele conjunto precisavam nascer um livro de 96 páginas e uma exposição. Tracei uma narrativa central para a publicação e comecei a construir, dentro dela, combinações de imagens e pequenas histórias.

Formei blocos de cores e atmosferas, trechos mais populosos, momentos de contenção e sequências mais abertas. Dessa edição surgiu o livro, com 59 fotografias, e, posteriormente, a exposição, composta por 22 imagens.

A exposição foi realizada no Museu da Fotografia Cidade de Curitiba, então instalado no Memorial de Curitiba. O livro foi lançado no mesmo dia.

*Expediente* alcançou uma dimensão que eu jamais havia imaginado quando comecei a caminhar pelo centro no fim da tarde. Talvez seja justamente essa a característica mais importante do trabalho. Ele nasceu sem uma pretensão artística previamente definida.

Eu não saía para cumprir um conceito nem para produzir uma obra específica. Fotografei de forma livre, experimentando aquilo que despertava o meu interesse.

Somente quando reuni as imagens percebi a extensão dessas experiências. Muitas das escolhas não eram conscientes. Eu caminhava e fotografava sem pensar demais, sem identificar claramente as referências que eram ativadas ou aquilo que minha mente elaborava enquanto eu observava a cidade.

Isso fez com que a edição fosse especialmente rica. Havia uma linguagem diversa, muitas possibilidades de combinação e diferentes histórias que poderiam ser construídas com aquelas fotografias.

Durante os mesmos anos em que fotografava *Expediente*, tentei desenvolver muitos outros projetos. Escrevia textos antes de fotografar, criava conceitos e elaborava séries que, na maior parte das vezes, nunca conseguia realizar.

Ironicamente, o trabalho que nasceu da maneira mais espontânea foi aquele que se tornou material.

Foi ele que virou exposição, livro e objeto. E é ele, até agora, que tenho para deixar como a expressão mais inteira da minha fotografia autoral.

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