Elza Soares me ensinou

ARQUIVO VIVO / 26.08.2026
aprendizado
Fotografei a Elza Soares e ela me ensinou uma coisa sem abrir a boca.
Comecinho da minha carreira, em 2016. A Elza faria um show aqui e um cliente e amigo assinava o figurino da turnê A Mulher do Fim do Mundo. Eu queria muito fazer um retrato dela e ele precisava de fotos desse momento também, então me conseguiu um acesso ao camarim no dia do show, no Teatro Guaíra.
Deixei tudo montado antes dela chegar e, quando acabou a apresentação, fui até o camarim. Tinha aquela fila de fãs com seus discos, pôsteres pra autografar. Lembro de ter me sentido, inocentemente, um pouco orgulhoso por não precisar esperar ali.
Entrei no camarim, já preparando meus equipamentos, e ela estava lá com o pessoal do staff ao redor. Eu estava tão focado na foto que não me dei conta de quem estava diante de mim pra ser fotografada. E ela percebeu.
Quando me abaixei pra cumprimentar e peguei na mão dela, ela puxou a mão e me olhou com uma cara que eu nunca esqueci. Não era simpatia, era outra coisa.
Fotografei mesmo assim, sem conexão. Fiz minhas fotos, agradeci e saí. Na época, achei que tinha dado errado.
Demorou um tempo pra eu entender o que tinha acontecido naquele dia, até perceber que ela tinha me ensinado algo sem abrir a boca.
Eu só tinha ido ali para tirar a minha foto. Naquele momento, a dimensão da pessoa que estava diante de mim, o peso simbólico dela, não estava no meu horizonte e eu transpareci isso.
Não importa quem está sendo fotografado, antes da luz, do enquadramento, do resultado, tem algo que vem antes. Respeito por quem se coloca diante da sua câmera e te autoriza a observar de perto, por alguns minutos, o rosto dela e tomar pra si aquela imagem.
Não sei se de fato ela pensou nisso, não faço ideia do que ela estava pensando. Só sei da minha postura naquela ocasião. Valioso aprendizado.

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